Relatório das memórias da Cidade
"Companheiros outros do Movimento da Fraternidade, têm pedido, insistido comigo para escrever sobre a Cidade da Fraternidade. Tenho resistido muito, pois acho isso uma tarefa muito difícil para mim, por causa do meu nível de cultura, e assim um trabalho de muita responsabilidade. Assim, tenho refletido muito, e diante de sérias circunstâncias que todos os dias estamos vendo, resolvemos fazer o possível para dar a nossa colaboração. De início vamos falar um pouco da nossa pessoa, já que a princípio, não é falar de nós, mas sim da Cidade. Somos de natureza mística, estudante ardoroso e apaixonado de toda vida, e da natureza de Deus e da humanidade. Em dezembro de 1963, quando para cá viemos, tínhamos 34 anos incompletos, mas trazíamos no coração um grande anseio de realizações humanas. O ideal de prepararmos crianças para o terceiro milênio era algo que tomava conta da nossa vida; a ele entregava todas as nossas forças, a ponto de sacrifício. Trabalhávamos muito e estudávamos pouco, mas observávamos tudo, procurando tirar as conclusões vendo se as coisas estavam caminhando por caminhos certos". Arquivo: memórias cifrater 01.pdf
Relatório das memórias da Cidade: No início
"No início, quando viemos para cá, era tudo maravilhoso, a espiritualidade sentava conosco em todos os momentos, 24 horas por dia. Havia em todos nós uma disposição, uma dinâmica extraordinária, uma alegria pura e verdadeira. A caravana pioneira chegou à RECIFRA, que naquele tempo ainda era o "Posto Tritícola do Ministério da Agricultura do Estado de Goiás". Éramos ao todo 9 pessoas, 8 homens e uma moça, que foi a primeira mulher a entrar nos terrenos da Cidade e participar do lançamento da pedra fundamental. Chegamos às 5:30 horas da manhã e fomos recebidos pelo administrador do Posto, Senhor Juca, um mineiro que se mostrou muito acolhedor, mas bastante preocupado. Informado pelo Dr. Lídio Diniz Henrique dos nossos objetivos, se pos à vontade e à nossa disposição. Assim, depois de tomarmos aquele cafezinho que o Sr. Juca nos ofereceu, passamos às primeiras atividades, orientados pelo Dr. Lídio, assessorado pelo Sr. Juca. As primeiras iniciativas foram arranjar as ferramentas e alguns trabalhadores do Posto, para nos ajudarem a abrir um caminho de quatro quilômetros, que ligava o Posto ao terreno da Cidade. Feito esses preparativo parte para o trabalho, que não foi muito difícil, e quando foi lá pelas 9 horas estávamos chegando no terreno da Cidade da Fraternidade". Arquivo: memórias cifrater 02.pdf
3º Relatório das memórias da Cidade
"Chegando no terreno da Cidade, a caravana buscou um ponto à margem do córrego Lajedo, que é um pequeno riacho que corre por toda a extensão do terreno. Assim que chegamos nesse ponto, encontramos com outros irmãos que tinham vindo de Pinhal, estado de São Paulo e de Goiânia, para participarem desse extraordinário evento que era o lançamento da Pedra Fundamental da Cidade da Fraternidade aqui no Planalto Goiano. Esses companheiros eram: José Geraldo Tito, Juarez Cavaliere, Andalécio Rinco, Rogério Arlenque e Aristonildes, de Goiânia. Queremos abrir um parêntese para relator um fato muito importante para os irmãos do Movimento da Fraternidade: o diretor tesoureiro da OSCAL era um médium vidente e ele vinha descrevendo para o Dr. Lídio o que estava acontecendo no lado espiritual e o Dr. Lídio repassava alguma coisa para nós. Uma delas foi que o André Luiz e equipe espiritual do Movimento da Fraternidade acompanharam a caravana desde Belo Horizonte até a Cidade e ficou até o momento do lançamento da pedra fundamental". Arquivo: memórias cifrater 03.pdf
4º Relatório das memórias da Cidade
"Depois das despedidas dos companheiros que partiram, começamos a descarregar algumas coisas num pequeno rancho meio destruído que algum goiano havia deixado por ali: fogão, panela e outras vasilhas, bem como algum alimento. O Nelson de Almeida, se improvisando de cozinheiro, começou a preparar a cozinha para um pequeno almoço. Dr. Lídio, junto com o Cristo Horta, Mário Veloso, Ecritom, Edel, foram subindo um terreno acima em busca do local onde seria lançada a pedra fundamental da Cidade da Fraternidade. Dr. Lídio já conhecia bem aquilo tudo por ali, já tinha vindo por aqui quando a OSCAL comprara o terreno do ex-prefeito de Veadeiros. Devemos esclarecer aqui, um fato que deu origem a muitas situações nada agradáveis na vida da Cidade: quando em 1960, a delegação da OSCAL esteve aqui procurando o terreno para a construção da Cidade, comprou 200 alqueires e recebeu outros 300 a título de doação, ficando a Cidade com 500 alqueires de terras. O Vendedor e doador, naquela época, prefeito de Veadeiros foi quem mostrou as divisas do terreno e passou as duas escrituras no Cartório de Veadeiros, hoje Alto Paraíso de Goiás. Assim sendo, mais tarde quando recebemos do Ministério da Agricultura do Estado de Goiás a escritura do comodato por 10 anos, reformado por mais 10 e ainda por mais 10 anos, que terminaria em 2001. Pois bem, como estávamos dizendo, quando recebemos essa escritura, fomos verificar que o terreno em que estava localizada a Cidade da Fraternidade, pertencia ou pertence ao Ministério da Agricultura. Daí que esse problema continua até hoje sem nenhuma solução. Quando o Dr. Lídio voltou com o pessoal que foi com ele localizar o local da pedra fundamental, o almoço do Nelson já estava pronto, por sinal muito gostoso. Depois do almoço, fomos todos descarregar o material de construção, já no local onde seria construído o barraco pioneiro da Cidade. O Nelson, eu e os dois choferes dos caminhões fomos começando a construção do barraco. O resto da turma voltou ao posto para arrumar um quarto que o Sr. Juca nos ofereceu para a dormida naquela noite. Esse mesmo pessoal ficou hospedado na casa do administrador. A esposa do Sr. Juca se desdobrava para atender a todos com muito carinho, parecendo até uma fraternista. Dr. Lídio ficava encantado com a acolhida do casal de goianos. Naquele dia á tarde, voltamos ao barraco do almoço, tomamos banho nas águas do lajedo, jantamos a sobra do almoço. Conversamos um pouco e fomos dormir quase que em pleno céu aberto. Dormir para mim não foi bem o caso, mas sim um deslumbramento, uma noite do paraíso". Arquivo: memórias cifrater 04.pdf
5º Relatório das memórias da Cidade
"Enquanto o Nelson, eu e os dois choferes prosseguíamos na construção do barraquinho pioneiro, o resto do pessoal lá no posto preparava os pacotes de presentes para o dia de Natal, que se aproximava. Era vontade do Dr. Lídio realizar o primeiro Natal Cristão Espírita aqui na Cidade da Fraternidade, e se bem pensou, melhor realizou. Assim que terminamos de construir o barraco, transportamos para lá todos os objetos que estavam lá na beira do rio lagedo para ele. A inauguração do barraquinho foi feito com uma prece e uma cafezinho gostoso, que nosso irmão Nelson ofereceu para todos. Construímos no centro do barraco uma mesa rústica que serviu para o primeiro culto cristão no lar. Realizado com todo o pessoal da caravana. Mais tarde serviu como Casa de Oração. Nesse barraco houve muitos fenômenos espirituais naquele tempo de casa de oração, mais tarde com a construção da Casa de Veneranda, que também ficou sendo a Casa de Oração da Cidade, os fenômenos foram para lá. Depois da inauguração e outras providências, o Dr. Lídio passou a definir o lugar da pedra fundamental. Olha aqui, olha ali, ficou definido o lugar. Reunimos de mãos dadas num grande círculo e o Dr. Lídio fez uma belíssima prece exortando a Deus o desabrochar e o crescimento da nossa Cidade. Após a prece o Dr. Lídio passou a perguntar para todos, de um a um, o que a gente tinha visto ou sentido durante a prece. Um a um foram respondendo e quando chegou a vez do Walter, o chofer do mercedinho, ele começou a chorar e saiu correndo para o lado da mata. Nesse momento o Dr. Lídio correu e o alcançou, amparando-o na sua manifestação mediúnica, com o seu carinho fraternal. Mário Veloso com sua vidência lúcida descreveu para todos nós a presença de André Luiz e toda a equipe espiritual ligada ao movimento da fraternidade, com a de muitas entidades de luz, desconhecidas de todos nós. Após o encerramento da prece, passamos ao plantio das árvores que eram na realidade as representantes da pedra fundamental. Nesse dia o Sr. Juca e Dona Lurdes, a sua queridíssima esposa, ofereceu um almoço para todos nós, uma verdadeira delícia, que o Dr. Lídio agradeceu com um discurso amável. O pessoal da caravana distribuiu para os moradores da região, chocolates, balas, doces, roupas de uso pessoal, toalhas, roupas de cama, lençóis, cobertores e muitas outras coisas, recebidos com muita alegria, pois nunca tinham visto aquilo. Assim com chave de ouro, foi realizado o primeiro natal na Cidade da Fraternidade". Arquivo: memórias cifrater 05.pdf
Relatório das memórias da Cidade: a Despedida da Caravana e o grande sonho do Dr. Lídio
"O Dr. Lídio ficava horas andando de um lado para outro, e sempre olhando o terreno baldio em torno do barraquinho pioneiro. Eu não sou um experto em leitura de pensamentos, mas tinha quase a certeza de que ele estava pensando assim: aqui, brevemente esse terreno estará cheio de crianças alegres e felizes, e assim eu dentro do meu silêncio observador, respondia para ele: com certeza, com certeza. Depois de oito ou mais dias de permanência na Cidade e com muitos afazeres, chegou o dia que a caravana ia retornar para Belo Horizonte. Na parte da manhã daquele dia, o pessoal estava arrumando as malas, e todos olhavam muito para todos os lados, parecendo antever a saudade que iriam sentir quando longe dali estivessem. Enquanto o Nelson preparava o almoço, os motoristas davam o ultimo retoque nos caminhões. Dr. Lídio, Cristo Horta, Mário Veloso e eu fomos inaugurar a estrada que chegava à Cidade pela entrada de Brasília. Eram quatro quilômetros, estava roçada e destocada, só faltava passar o caminhão e fazer a prece de inauguração. Subimos de caminhão até o entroncamento até o entroncamento da estrada que vem de Brasília e vai para o posto, hoje Recifra. Ali viramos o caminhão, demos as mãos e o Cristo Horta fez a prece de inauguração. Terminada a prece, descemos de caminhão, bem devagarzinho, apreciando as belezas do morro dos dez mandamentos e do "Vale do Clareon", assim como o Dr. Lídio os denominou. Chegando ao barraco, Dr. Lídio chamou a todos e fizemos um culto com a leitura do Evangelho e comentários de quase todos os companheiros presentes. Em seguida o Mário Veloso passou a relatar os quadros de vidência: no canto do barraco estava o nosso irmão André Luiz e um sacerdote ao lado de uma pia batismal, batizando uma criança. André Luiz disse que a primeira criança a nascer na Cidade, se mulher, chamaria " " e se fosse homem, era para se chamar " ". Esse fato não aconteceu. O primeiro menino nascido na Cidade teve o nome de Sagres e a primeira menina se chamou Lívia. Terminado o Culto, fomos todos almoçar num clima de bastante alegria e felicidade. Depois do almoço começaram as despedidas. Abraços, muitas lágrimas, recomendações, tomaram seus lugares e partiram. Ficaram na Cidade o Nelson Almeida, como administrador, e o José Carlos Arantes como chofer e pau para toda obra. Estava assim iniciada a Cidade da Fraternidade, em 26 de dezembro de 1963". Arquivo: memórias cifrater 06.pdf
Relatório das memórias da Cidade: Os primeiro Passos da Cidade
"O Dr. Lídio não nos deixou nenhuma instrução especial, tão pouco também não nos conhecia muito bem, talvez seja por isso. Ele disse apenas para nós ficarmos por aqui aguardando uma volta dele, quando então ele ia ver como é que íamos dar andamento nos trabalhos. Deixou algum dinheiro com o Nelson, para o caso de alguma emergência. As pessoas da nossa idade não conseguem ficar muito parado, e foi daí que eu falei para o Nelson que eu iria plantar umas leras de batata doce e uns pés de bananeiras, e que iria buscar as mudas lá no posto com o Sr. Juca. Era muito monótono ficar ali parado sem fazer nada. O Nelson não só concordou como disse que ia também me ajudar. Pois bem, em uma manhã ensolarado, passamos a mão em duas enxadas e dois enxadões, procuramos um terreno ali mesmo perto do barraco e começamos nosso trabalho. Depois de duas horas de trabalho já tinha umas 6 ou 7 leras, estávamos suados mas felizes. Aí o Nelson falou: vamos beber uma água e tomar um cafezinho, depois nós voltamos. E lá fomos nos tomar cafezinho. O Nelson era um camarada parrudo e pensava muito, por isso o diálogo entre nós era um pouco difícil. Eu era alto, magro, alegre, mas também sempre meditativo e bastante introspectivo, em muitas horas, facilmente era dado à abstração. Depois daquele cafezinho voltamos para o trabalho até as 10,30 horas, quando fomos fazer o almoço que não demorou muito. Depois do almoço surgiu um problema difícil. A água acabou e nós estávamos trazendo água lá do lajedo, pois aqui na mata, perto da Cidade não havia água. Falei para o Nelson que dentro de duas horas haveria água aqui pertinho, ele me olhou duvidando um pouco, mas não disse nada. Peguei um enxadão, uma enxada, uma pá e uma lata que tínhamos usado a tinta no barraco. Com esse material desci para a beira da mata e comecei a furar um poço de um metro de diâmetro no meio da várzea. Dentro de uma hora e meia mais ou menos cheguei na água que brotou exuberante e fresca. Saí de dentro do poço e sentei no barranco e fiquei olhando a água brotar. Dentro de uns 20 minutos colhi uma lata de água e levei para o Nelson que ficou meio assustado e perguntou como tinha conseguido aquela água. Respondi que tinha feito um poço. Ele disse: não é possível, então eu falei – vai lá e vê, ele foi e quando voltou me disse: você fez aquilo tudo dentro desse tempo? Eu disse que sim". Arquivo: memórias cifrater 07.pdf
Relatório das memórias da Cidade: O ano de 1964
"Com a chegada do ano novo, as chuvas também chegaram, e com isso as perspectivas de vida também não foram diferentes. Janeiro aqui no Goiás é chuva pra valer. A gente dentro do barraco o dia todo, ai a coisa foi ficando esquisita, a gente tinha saudades do sol, do trabalho, enfim, de movimento. Parecia que a gente estava ficando embolorada. Nós líamos muito. Aproveitei para o tempo para ler. O Nelson tinha trazido uns bons livros espíritas, romances, mensagens e as obras básicas de Kardec. Então fui devorando tudo e isso fazia muito bem para o meu espírito. Comecei também a ler as obras de André Luiz, Néio Lúcio, Irmão X, A Dois Mil Anos, Cinqüenta Anos Depois, Ave Cristo, Renúncia, Paulo e Estevão, etc, etc. As chuvas foram passando, dando uns espaços para a gente trabalhar um pouco, começar a desenferrujar, como dizem os paulistas. Um dia o Nelson me disse que precisávamos comprar uns cavalos para poder conhecer bem as terras da Cidade. Pois bem, assim logo comprou um cavalo zaino alto e um mais baixo, pelintra, como foram chamados: zaino e pelintra. O Sr. Juca foi para Goiânia e o Nelson pediu e deu a ele dinheiro para comprar dois arreios, cabresto e baixeiro para o arreamento dos cavalos. Todos os dias nós dois saíamos a cavalo para conhecer de perto as terras da Cidade. Quando fomos conhecer o terreno que constitui as fraldas das montanhas dos Dez Mandamentos, surgiu sério problema: encontramos alguém que disse ser dono daqueles terrenos, que era herdeiro da velha Andreza, antiga dona daquela gleba. Veja bem meus companheiros que os 530 alqueires que o Sr. Delfino tinha vendido para a Delegação da OSCAL, não estava certo, tinha, além do Ministério da Agricultura, outros donos. Digo outros donos por que, pra cá do lajedo, confinado entre duas veredas também tinha um outro dono que se chamava Sr. Gustavo de Tal, que possuía ali também uma gleba de terras de 18 alqueires. Agora meus amigos, eu vos pergunto: toda a terra que o Sr. Delfino vendeu para a OSCAL está tomada por outros donos, e onde estão as verdadeiras terras da Cidade, isto é os 530 alqueires? Estamos procurando mostrar para os irmãos, que a Cidade, sendo uma obra de elevada idoneidade moral, jamais poderia ter começado assim como começou. Digo-vos ainda irmãos, que apesar dos trinta e três anos de existência, esse assunto nunca foi resolvido, e pelo que sei, ele não tem solução, pois dentro da Fazenda Paraíso, não existem outras terras que poderiam vir a pertencer a Cidade". Arquivo: memórias cifrater 08.pdf
Relatório das memórias da Cidade: A volta do Dr. Lídio
"Depois de dois meses e alguns dias do início da Cidade, volta o Dr. Lídio cercado de ótimas perspectivas e algumas preocupações. Precisava preparar o ambiente para a realização da 5ª Semana da Fraternidade. Dizia ele que precisava realizar esse evento para trazer o pessoal do Movimento da Fraternidade aqui para se entusiasmarem com a obra. Para tanto precisava tomar uma série de providências. Construir 2 barracões de adobe e de palha para abrigar os fraternistas durante o evento. Para tanto era necessário trabalhar muito: puxar pedra para o alicerce, arrumar empreiteiro para fazer o adobe, outros para tirar madeiras e esteios, caibros, etc. Nós ficaríamos com a incumbência de fazer o carreto de todo o material para o pé da obra. Outra notícia também alvissareira era que o nosso irmão Andalécio, Romilda e família chegariam em abril para assumir a parte contábil e administrativa da obra. Nessa altura, o Nelson ficou um tanto preocupado, pois ele ia perder o cargo, mas eu animei ele, dizendo: que ele ficaria com as obras que já eram muita coisa, ele parece que compreendeu e procurou se conformar. Diante de todo esse trabalho, o jeito foi se conformar e por as mãos à obra. Começamos a furar dois poços para água, um aqui no barraco e outro lá no local dos barracões, para atender as construções e para o uso do banho e confecções das comidas. Para esse trabalho foi ajustado o primeiro trabalhador goiano. Nessa altura a coisa começou a pegar fogo, isto é, a tomar impulso, já tinha gente tirando madeiras, pedra, palha, tudo para construir os barracões.O mais duro foi para o Nelson que tinha de fiscalizar tudo e fazer comida para todos nós. Eu procurar ajudar um pouco, mas era somente um pouco, pois se eu parasse no meu serviço do poço, o empregado que trabalha no saril, isto é, puxando o entulho, ficava também parado. Lidar com o goiano nesse tempo não foi fácil, pois ele possuía um ritmo diferente de nós, era vagaroso, enrrolão e pitava sem parar, era um horror, pois não tínhamos esses hábitos. Dr. Lídio deixa dinheiro para as obras em andamento e retorna para Brasília, para tomar outras providências com os companheiros de lá que nesse tempo eram muito poucos. Aqui o Nelson e eu continuávamos na luta, mas o maior trabalho era lidar com os goianos; eles não trabalhavam e quando trabalhavam não faziam o serviço direito, além disso, eram metidos a valentes, a gente fazia de tudo para não sair no braço ou no pau com eles. Bem, mas como não há regra sem exceção, no meio dessa turma existiam uns dois que eram exemplos de gente boa e até hoje são amigos da gente". Arquivo: memórias cifrater 09.pdf
Relatório das memórias da Cidade: A Chegada do nosso irmão Andalécio Rinco
"A chegada de nosso irmão Andalécio foi uma alegria muito grande, era a primeira família a pisar no solo bendito da Cidade da Fraternidade. A família era ele, a esposa Romilda e dois garotinhos de 2 e 4 anos, muito espertos e bonitos. Ele veio em uma Kombi carregadinha trazendo ali toda a sua mudança, que por falta de casa na Cidade, passou a morar em uma casa lá no posto tritícola, que o nosso já conhecido Juca cedeu para eles. O nosso irmão Andalécio era de estatura mediana um pouco grosso de corpo, era ligeiro e nervoso, dinâmico e atirado, as vezes imponderadas. Nossa irmã Romilda era também de estatura mediana, magra, muito alegre e comunicativa. O trabalho, agora sob a administração do Andalécio, continuou acelerado e progredindo sempre. Foram terminados os poços e feitas as instalações hidráulicas. Agora a água era farta na Cidade. Romilda assumiu a cozinha do barraquinho e fazia toda a comida para nós, isto é, fraternistas e trabalhadores. Para as obras dos barracões já tinham sido puxados pedras, areia, esteios e o madeiramento do telhado. Estava chegando o cimento para os alicerces. Começava também abrir os buracos para os esteios dos prédios. Os barracões mediam 10 metros de largura por 50 de comprimento, com quatro janelas grandes de cada lado e duas portas para entrada, uma em cada extremidade. Foram construídos três desse tamanho para abrigar 500 fraternistas durante três dias e três noites. Coube ao Nelson de Almeida a incumbência de dirigir as construções e ao Andalécio administrar as finanças. Esses dois fatores trouxeram sempre alguma dificuldade na convivência entre os dois. O Nelson gostava de fazer as coisas bem feitas e segurar, o Andalécio gostava de economizar o máximo possível, por isso a harmonia entre eles se tornava difícil. Era quase freqüente haver atrito entre os dois. O Andalécio nervoso fica vermelho, o Nelson ficava preto, aí começava a luta de ser jogado um contra o outro, quebrando assim a harmonia do ambiente, fator imprescindível para a obra. Mais tarde eu vim também a padecer esses mesmos problemas, que me amargurava muito. Estamos citando esses fatos para mostrar aos meus irmãos do Movimento da Fraternidade que a obra que era para ser construída em bases de amor puro, teve sempre essas dificuldades. Com os apóstolos também não foi diferente. Outro fator que queremos deixar aqui registrado é o seguinte: a Cidade era para ser construída por mãos e braços de fraternistas, só que os fraternistas não vieram, então o administrador passou a ajustar mão de obra remunerada. Com isso a obra passou a ter uma população meio a meio, quer dizer, metade comunitários e metade leiga, que trouxe sempre grande dificuldade". Arquivo: memórias cifrater 10.pdf
Relatório das memórias da Cidade: A 5ª Semana da Fraternidade
"A quinta Semana da Fraternidade chegou, e com ela grandes perspectivas, grandes alegrias em todos os corações da irmandade. A espiritualidade se desdobrava derramando nas almas aqui reunidas o bálsamo do amor e da paz. Era muito comum ver irmãos chorando no ombro um do outro, numa confidência sentida. A Cidade da Fraternidade pareceu naqueles dias a antiga Cafarnaum dos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo. A despedida foi cheia de abraços, prantos e de promessas, que infelizmente não se cumpriram até hoje. Muitos prometiam chegar em suas casas, normalizarem suas vidas e voltarem para cá, cerrando fileiras junto de nós. Dr. Lídio vibrava de felicidade em ver aquela esperança. Foram os dias passando e a promessa não se cumpriam, mas a vida aqui na Cidade continuava alimentando aquelas benditas esperanças. Certa vez companheiros de Brasília nos disseram que os Grupos da Fraternidade estavam preparando casais para vierem para cá, e pegarem crianças para assistirem em lares família, mas que eu saiba, até hoje esses casais não apareceram. Os que aqui vieram, depois de anos, foram aqueles que lá fora estavam com dificuldades econômicas, e que optaram a realizarem uma experiência aqui, mas assim como vieram, também dentro de pouco tempo voltaram, e até desistiram do Movimento. A vida aqui, se por um lado é boa, no sentido de viver perto da natureza, por outro, de viver rente com a espiritualidade não é fácil. Temos de dar testemunho de verdadeiros cristãos, mas isso é muito difícil. "muitos vieram, mas quase ninguém ainda foi escolhido". Já passaram por aqui mais de uma centena de obreiros, mas 99 por cento se despediram e foram embora para nunca mais voltar. Enquanto os fraternistas vão passando, os empregados goianos vão ficando, com isso a situação da obra é lamentável, por que o padrão vibracional é insustentável. Outro fator a considerar, são aqueles como consertadores da obra "salvadores da pátria", que depois de mexer e remexer a obra, acabam deixando a emenda pior do que o soneto. Há também os figurões do Movimento, que aparecem aqui lá uma vez ou outra, faz muita pergunta, dão muito palpite e depois vão embora, mas não ficam só nisso, lá fora, nas assembléias, se pontificam como grandes inspiradores da obra – "Estes são os construtores de obras feitas". Arquivo: memórias cifrater 11.pdf
Relatório das memórias da Cidade: O Grupo De Sagres e os Grupos de São Paulo
"Nos primeiros sete ou oito anos vivemos momentos maravilhosos aqui na Cidade. Quando o Grupo de Sagres, a cada quatro ou cinco meses nos visitavam, trazendo sua pequena caravana, companheiros ou companheiras de outros grupos paulistas,"Fabiano de Cristo, João Ramalho, Lauro e do extinto Manoel da Nóbrega" . Foram tempos maravilhosos mesmo; esses irmãos vinham, traziam e levavam energias novas que nos encorajavam e nos fortaleciam para a luta. Ás noites, todos nos reuníamos no quintal do bloco Nova Era, cantávamos e conversávamos até altas horas, os espíritos superiores, José Grosso, Palminha, Scheilla. Joseph e outros, todos, encarnados e desencarnados ficávamos muitos felizes. Éramos então uma grande família, reunidos sob as bênçãos de Deus e de Jesus. A fraternidade realmente existia. Depois,...... depois,.... tudo foi mudando, sempre para outros quadros diferentes, mas nunca mais como aqueles dias e noites inesquecíveis. Porque tudo ficou tão difícil? Porque tudo mudou assim? A convivência ficou muito difícil, até mesmo entre os irmãos. Vou contar uma história, a título de exemplo: um companheiro nosso, do Grupo De Sagres esteve nos visitando e ficou muito entusiasmado, resolveu montar aqui uma granja para criar pintos. Voltando para São Paulo, montou um pequeno clube com o objetivo de arranjar o dinheiro. Tanto fez, tanto lutou que arrumou o dinheiro. Com o dinheiro no bolso partiu para construir a granja. Chegando aqui, a diretora era uma ex-diretora do seu Grupo, o De Sagres. Após os primeiros contatos, começou o serviço; olha aqui, olha dali, escolheu o local e procurou a buscar o material para a construção. Aí aconteceu o seguinte: naquele tempo a RECIFRA estava de vento em popa, monopolizava toda a mão de obra e a marcenaria. Com isso o nosso irmão encontrava tremenda dificuldade para encostar o material para a obra. Falou com a diretoria de Brasília, de São Paulo, mas a coisa continuava do mesmo jeito. Nem Brasília nem São Paulo podiam interferir no trabalho da administração da RECIFRA, pois ela tinha negócios com o governo e não podia abrir mão de nada. Aí nosso irmão apavorou-se, procurei amparar ele, dá melhor maneira que eu podia, mas foi tudo em vão. O companheiro foi embora. Na véspera da partida, ele muito triste falou comigo: Olha Zé Carlos, eu vou para São Paulo falar com aquela gente, se eles não resolverem esse problema, vou enterrar a cabeça n o chão, que nem avestruz e desaparecer de uma vez para sempre daqui. Foi dito e feito o que aconteceu, não voltou nunca mais". Arquivo: memórias cifrater 12.pdf
13º Relatório das memórias da Cidade: O Dr. Lídio e o Movimento da Fraternidade
"O Dr. Lídio foi um dos espíritos privilegiado para lidar com o Movimento Oscalino da Fraternidade. Ele conseguiu inspirar p Movimento através da sua palavra dinâmica e aculturada de espiritualidade superior. Certa vez tivemos a felicidade de ouvirmos através da sua mediunidade a palavra do mentor do Movimento da Fraternidade. Nosso irmão André Luiz. Isto foi no ano de 61 e o Coronel Claimon saíram um dia de Brasília e vieram até a Cidade nos fazer uma visita de amabilidade e cortesia e lá por uma certa hora da noite ele nos convidaram para fazermos uma leitura evangélica e foi nesse ambiente de prece e leitura que o nosso Mentor juntamente com o nosso irmão Joseph Gleber nos deram sua palavra amiga e cheia de amor. Aquela noite foi uma maravilha, pois nenhum de nós esperávamos aquele divino e precioso presente do Céu. Depois da reunião fomos todos dormir, pois nossas almas naquela noite, fomos levados ao Paraíso. Dr. Lídio perseguia dentro do movimento pleiteando uma secretaria administrativa para Brasília, pois achava ele, que era impossível administrar a Cidade da Fraternidade de Belo Horizonte. Depois de diversas reuniões e em BH ele conseguiu o alvo tão desejado em Águas da Prata em 1967. Conseguindo a autorização por uma votação razoável ele retorna a Brasília para organizar a mesma, e entrar logo em atividade. Prosseguindo na atividade de organização em Brasília, o Dr. Lídio desfechou uma campanha no Movimento para arrumar recursos para construir as primeiras casas de alvenaria na Cidade. Enquanto a caminhada se movimentava, já nós aqui na Cidade começávamos a construção da primeira casa que passaria a ser a casa Pioneira aqui da cidade; Chegando os recursos do campanha, também já se começava os alicerces do primeiro bloco de casas para os lares família. Nesse tempo os trabalhos se desdobrava em grande atividade. Esse trabalho da abertura dos alicerces, tiragem e carreto de pedras, fabricação de tijolos, carretos de areia e cimentos, pregos e madeiras para formas e andaime, enfim era a luta que convocava-nos ao cumprimento do dever. Surge um pequeno e grande problema, problemas esses que deixou marcas para o futuro: a economia na construção. As casas poderiam deixar de ser casas individuais para ser casas germinadas, para isso, o arquiteto tinha muitos exemplos em Brasília". Arquivo: memórias cifrater 13.pdf
14º Relatório das memórias da Cidade: As casas Germinadas
Com tanto espaço que tinha os e ainda temos, o Arquiteto acabou convencendo administração pelas casas germinadas isto é, pelo blocos. Hoje a cidade poderia ter um belo aspecto urbanístico no entanto, por causa de uma parede perdemos esta maravilha. Ainda hoje eu choro ter perdido esta causa; eu votei contra; perdi a causa, mas ganhei a verdade, pois ainda hoje muita gente, muitos irmãos, lamentam aquela construção. Infelizmente os nossos irmãos da administração desde o começo da Cidade foram muitos envolvidos pelas forças menos dignas que tentam por toda parte frustrar os planos sérios e elevados, havia muita vaidade na coisa. Mesmo dentro dessas pequenas e grandes contratempos as obras continuavam em ritmos acelerados; dentro de 6 meses a casa pioneira e o bloco de quatro casas germinadas estavam prontas. A inauguração foi um sucessão, os três casais pioneiros passaram a habitar esses condomínios com a instalação de água e luz. A água era fornecida por uma bomba a gasolina e a luz eram fornecida por um conjunto gerador, no espaço-tempo de três horas por noite: Habitados agora nessas residências nós continuávamos com os trabalhos em outras construções que iriam formar o conjunto Alvorada, mais cinco casas para lares-família. O carreto de pedras para o alicerce, brita para concretos, areia lavada, areia fina para reboque era trabalho de nossa responsabilidade. E além eu tinha o trabalho da horta e dois dias de padaria por semana e mais a tiragem e carreto de lenha para os fogões e padaria. Era trabalho para chuchu, não dava tempo nem para piscar". Arquivo: memórias cifrater 14.pdf
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